Quem trabalha com programas de aprendizagem já ouviu frases como: “O jovem não quer nada com nada”, “eles entram e logo pedem para sair”, “a gente investe e eles não ficam”.
Por trás dessas frases existe um fenômeno que preocupa empresas e instituições formadoras: a rotatividade de jovens aprendizes. Em muitos casos, o contrato termina antes do previsto, ou o próprio jovem decide sair no meio do caminho.
A pergunta é: será que ele simplesmente “não quis aproveitar a oportunidade”? Ou há questões mais profundas, que merecem ser compreendidas com mais cuidado? Este texto é um convite para olhar além do rótulo e entender o que costuma estar por trás do “quero sair” – e, principalmente, o que as empresas podem fazer para reduzir a rotatividade e fortalecer a permanência dos jovens.
O que é rotatividade quando falamos de jovens aprendizes?
Aqui, rotatividade é quando o jovem pede desligamento antes do fim do contrato, começa a faltar com frequência até ser desligado ou não se adapta à empresa e acaba saindo precocemente. Em alguns setores isso se tornou tão comum que já é quase “parte do processo”: entra um jovem, passa alguns meses, sai, entra outro no lugar.
Essa lógica tem um custo alto. A empresa precisa repetir processos de seleção, integração e treinamento; perde conhecimento acumulado; vê equipes frustrarem-se por investir em alguém que não ficou; e, do lado do jovem, fica a sensação de fracasso ou de “não servir para o trabalho”.
O que os jovens dizem quando estão pensando em sair?
Nem sempre o jovem chega dizendo “quero sair”. Muitas vezes, a ideia aparece em frases soltas, ditas no corredor ou em conversas rápidas:
“Não estou aguentando a rotina.”
“Não estou aprendendo nada.”
“Ninguém fala comigo.”
“Só faço sempre a mesma coisa.”
“Não consigo conciliar com a escola.”
“É muito longe, gasto muito com transporte.”
Essas frases mostram cansaço, sensação de solidão, falta de sentido na experiência e dificuldades reais de organização de vida. Reduzir tudo isso a “falta de vontade” é injusto com a história de cada jovem e também pouco inteligente do ponto de vista da gestão de pessoas.
Motivos que aparecem por trás da rotatividade
Cada caso é um caso, mas alguns fatores se repetem. Um deles é a dificuldade para conciliar trabalho, escola e formação. O jovem precisa dividir o dia entre a jornada na empresa, as aulas teóricas do programa de aprendizagem, a escola regular (em muitos casos) e o deslocamento entre casa, escola, instituto e empresa. Quando os horários não conversam e o cansaço vai se acumulando, começam a aparecer faltas, atrasos, queda de rendimento. Sem apoio, isso vira motivo de saída.
Outro ponto é o ambiente pouco acolhedor. Não é preciso que haja hostilidade explícita para que o jovem se sinta deslocado. Às vezes, ninguém se apresenta no primeiro dia, ele é colocado em uma mesa afastada, as pessoas falam pouco com ele, explicam as coisas com impaciência, fazem piadas que o deixam desconfortável. Assim, ele até cumpre a jornada, mas emocionalmente já está longe.
Também pesa muito a sensação de estar em um lugar onde não se aprende. É claro que tarefas simples fazem parte da vida profissional de qualquer pessoa. O problema é quando, durante meses, o jovem só faz cópia, leva papel de um lado para o outro, organiza arquivos sem entender o porquê, atende a demandas soltas sem orientação. Chega uma hora em que ele se pergunta, com razão: “o que eu estou aprendendo aqui?”.
Há ainda as questões pessoais e familiares. Muitos adolescentes e jovens convivem com situações difíceis em casa, problemas no bairro, necessidade de contribuir com a renda, falta de espaço adequado para estudo. Se nada disso é levado em conta, a empresa enxerga apenas o sinal visível (faltas, distração, queda na produtividade), mas não consegue dialogar com a raiz do problema.
Por fim, há o desencontro de expectativas. O jovem pode ter imaginado uma rotina muito dinâmica e encontrar um ambiente mais burocrático. A empresa, por sua vez, às vezes espera alguém “pronto”, quando, na verdade, está recebendo uma pessoa em formação, que ainda vai errar, testar e precisar de apoio. Quando ninguém conversa sobre isso com franqueza, cresce a frustração dos dois lados.
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O que as empresas podem fazer com isso?
Nenhuma empresa controla todas as variáveis da vida de um jovem, mas muitas coisas estão ao alcance da gestão. O primeiro ponto é cuidar da chegada. Os primeiros dias são decisivos. Um jovem que é apresentado pela liderança, conhece as pessoas pelo nome, entende qual será sua função e sabe com quem pode tirar dúvidas se sente mais seguro para ficar e para avisar quando algo está difícil.
Também ajuda muito organizar, minimamente, as tarefas. Não é necessário criar um plano sofisticado, mas é importante que o jovem saiba quais são suas responsabilidades principais, o que se espera que ele aprenda ao longo do contrato e como aquilo se conecta com o trabalho da área. Quando ele percebe que não está ali só para “quebrar galho”, mas tem um papel real, o compromisso aumenta.
Outro movimento importante é abrir espaço para conversa, e não apenas para cobrança. Em vez de falar com o jovem só quando algo vai mal, faz diferença reservar alguns minutos, de tempos em tempos, para perguntar como ele está, o que tem sido mais difícil, o que tem dado orgulho. Nesses momentos, o gestor também pode dar devolutivas claras sobre o que está indo bem e o que precisa de cuidado.
Esse diálogo fica ainda mais forte quando a empresa procura o Instituto Formar (ou a instituição formadora parceira) para pensar junto. Muitas vezes, o que aparece na empresa é apenas a ponta de um iceberg. Em contato com o Instituto, surgem informações importantes: mudanças na rotina escolar, conflitos familiares, problemas de saúde, dificuldades de transporte. A partir daí, é possível construir alternativas mais justas do que simplesmente desligar.
Escutar o “quero sair” de outro jeito
Quando um jovem diz que quer sair, é comum que a reação automática seja a bronca: “Você não está valorizando a oportunidade”, “no meu tempo não era assim”, “vai se arrepender”. É compreensível que a empresa se frustre, especialmente quando investiu tempo e energia naquela pessoa. Mas responder só com julgamento fecha portas.
Uma escuta diferente começa com perguntas: desde quando você está se sentindo assim? O que está pesando mais para você hoje? Existe algo que a gente poderia ajustar aqui dentro para ficar menos difícil? Às vezes, a decisão de sair já está tomada. Em outras, um simples ajuste de horário, uma mudança de setor, uma conversa franca com a equipe ou um diálogo mediado com o Instituto Formar já diminuem a pressão e tornam possível continuar.
Mesmo quando a saída é inevitável, o jeito como ela acontece faz diferença. Se houver uma conversa de fechamento – em que o jovem escuta o que fez bem, o que poderia ter sido diferente, e também pode expressar seu lado –, essa experiência deixa aprendizados para as duas partes. Se tudo termina em silêncio ou briga, a tendência é que cada um saia reforçando preconceitos: “jovem não quer nada” de um lado, “empresa é lugar de sofrimento” do outro.
O impacto da rotatividade na vida do jovem
Quando um jovem é desligado de um programa de aprendizagem sem qualquer tipo de apoio, muitas vezes ele internaliza mensagens duras: “não dou conta de trabalhar”, “empresa não é lugar para mim”, “sempre vou fracassar”. Isso pesa na busca pelo próximo emprego, na relação com a escola e até na autoestima em outras áreas da vida.
Por outro lado, quando a empresa e o Instituto Formar tratam a situação como parte de um processo de desenvolvimento – não como um rótulo definitivo –, o cenário muda. Mesmo que o contrato termine antes do previsto, é possível que o jovem saia entendendo o que conseguiu construir, onde avançou, que dificuldades o derrubaram e que estratégias pode buscar no futuro. Isso evita que um episódio difícil se transforme em sentença.
Reduzir rotatividade é cuidar de gente, não só de indicadores
Diminuir a rotatividade de jovens aprendizes não é apenas economizar com seleção e treinamento. É assumir, de fato, o compromisso educativo que está na essência dos programas de aprendizagem: oferecer condições para que adolescentes e jovens construam uma primeira experiência de trabalho com sentido, com apoio e com respeito às suas realidades.
Quando empresas criam ambientes minimamente acolhedores, organizam o básico da rotina, abrem espaço para conversa e caminham em parceria com o Instituto Formar, um “quero sair” deixa de ser apenas problema. Vira sinal de que algo precisa ser revisto, e oportunidade para ajustar o programa para quem está ali hoje e para quem ainda vai chegar.
O Instituto Formar acredita que, quando enxergemos o jovem para além dos rótulos, a aprendizagem se torna um projeto compartilhado entre empresa, instituição formadora, família e, principalmente, o próprio jovem. É assim que a permanência deixa de ser acaso e passa a ser resultado de cuidado e responsabilidade.
Quer apoio para fortalecer a permanência dos jovens na sua empresa?
O Instituto Formar apoia empresas na estruturação e no acompanhamento de programas de aprendizagem que valorizam a permanência, o desenvolvimento e o diálogo com adolescentes e jovens.
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